Gastronomia Paraense expande ao sabor do empreendedorismo

Créditos: Marcos Médice

Da famosa e tradicional unha de caranguejo até o prato mais elaborado, a gastronomia paraense é marcada por um vasto leque de ingredientes que harmonizam com a criatividade de chefs locais e atrai paladares do mundo inteiro. E o melhor tempero da criatividade é o empreendedorismo, que neste setor tem se mantido aquecido. De acordo com dados da Junta Comercial do Estado do Pará (Jucepa), em 2015, ano em que Belém foi eleita pela Unesco como cidade da Gastronomia Criativa, foram registradas 3.091 empresas com atividades e serviços de alimentação. Em 2020, mesmo com a pandemia, este número subiu para 6.241 e até o dia 27 de julho, deste ano, já eram 5.600 empresas abertas neste setor.

Para o professor e coordenador do Projeto de Gastronomia e Turismo Criativo da UFPA e Diretor da Associação Comercial do Pará (ACP), Álvaro do Espírito Santo, a pandemia gerou profundos impactos no segmento da alimentação fora do lar, inclusive ocasionando o fechamento de vários restaurantes no Brasil em 2020. “O momento atual, entretanto, é de transição para um cenário mais favorável. Com o avanço do processo de vacinação as pessoas não só se sentem mais seguras para frequentar os restaurantes como precisam dar vazão a um sentimento de celebrar a vida”, considera.

Para Rosane Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) no Pará, as iguarias paraenses já eram bastante exploradas antes mesmo do título, mas este ajudou a evidenciar a origem e criatividade da culinária entranhada na cultura local. “Nossos chefs e cozinheiros possuem uma habilidade ímpar de transformar os insumos em iguarias apreciadas pelos quatro cantos. Nossa cidade ganhou reconhecimento com título e os amantes de uma gastronomia diferenciada chegaram até nosso estado aquecendo o setor e consequentemente na cadeia produtiva. De lá para cá ainda colhemos muitos frutos desse título com a intensificação do trabalho de nossos chefes e novos talentos que surgiram nesse período se destacando e evidenciando ainda mais a riqueza de nossa gastronomia e insumos. O setor da gastronomia com características nos produtos e insumos locais só cresce com releituras de pratos e receitas, gerando assim novos empreendimentos voltados à culinária regional”, diz Rosane.

Rosane Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) no Pará.

Antes mesmo do setor “aquecer”, ainda em 2009, o empresário santareno, Saulo Jennings, deixou a carreira em uma multinacional para se dedicar a outra paixão: a gastronomia. “Após 16 anos em multinacionais, resolvi dar novos rumos na minha vida. Aprendi muita coisa com meu pai, Fabiano, que era um cozinheiro de mão cheia, uma paixão que foi crescendo aos poucos ao longo dos anos até que se tornou a minha vida. Eu montei uma escola de kitesurf na minha casa, comecei a fazer refeições para os alunos e em algum momento as pessoas iam mais para comer do que para fazer aula. Então comecei com 5 mesinhas, um fogão de duas bocas e uns isopores que meu pai me emprestou, pois não tinha luz elétrica. Quando eu vi estava fazendo escola Laurent Sadou e expandindo os deques para receber mais clientes”, destaca.

Hoje, o chef e empresário conta com três restaurantes em pleno funcionamento, um em Santarém, Tapajós, dois em Belém, Quinta de Pedras e Onze Janelas, além de outros projetos em andamento. Saulo lançou recentemente os ‘Bangalôs de Selva Casa do Saulo’ de frente para o Rio Tapajós. São 10 bangalôs que entregam uma experiência única de floresta e Rio e a Saulo Tour, receptivo fluvial onde você pode se hospedar em barco e conhecer as principais belezas da região.

Muito a crescer
Saulo considera que o setor de gastronomia no Estado ainda está se desenvolvendo e ainda tem bastante acrescer. “A diversidade da floresta em pé, é sem sombra de dúvida um grande diferencial e estar cercado de tantos rios ao mesmo tempo só aumenta a nossa vantagem, sem contar os saberes ancestrais que herdamos dos povos indígenas, africanos e dos portugueses. Isso tudo compõe o nosso diferencial. Estamos engatinhando nessa área e temos muito a crescer justamente por isso, temos conversado com as prefeituras, com a Secretaria de Turismo (Setur) e também com Ministério do Turismo. Trabalhando juntos vamos crescer bastante. Empreender é um grande prazer, fazer acontecer e os desafios acabam sendo o mesmo de outros cozinheiros: mão de obra, incentivos governamentais e a qualidade dos produtos que vendemos nos restaurantes”, destaca o empresário.

Professor Álvaro do Espírito Santo

Para o professor Álvaro do Espírito Santo, a gastronomia continua sendo um negócio rentável, mas é preciso também considerar as significativas mudanças no perfil deste setor. “Mudou a configuração. Quem imaginaria, por exemplo, em 2019, que em menos de um ano, haveria uma explosão do delivery? Outra questão: as pessoas estão mais preocupadas com os efeitos da qualidade do alimento na saúde. Nesse contexto, o investimento em gastronomia exige um olhar mais atento às mutações ocorridas no comportamento do consumidor. A chave do sucesso é decifrar as expectativas do cliente neste novo cenário”, destaca.

Sobre os tipos de incentivo que o setor precisaria para expandir, o docente da UFPA considera que é fundamental haver um entendimento, corporificado em políticas públicas, de que a gastronomia é campo propício para o crescimento econômico com sustentabilidade. “Aproveitar de forma inteligente a imagem positiva da culinária paraense para incrementar o turismo gastronômico. Isto pode ser feito com ações estruturantes em três áreas: a obtenção de indicações geográficas para produtos paraenses, um amplo programa de capacitação profissional, e um programa agressivo de eventos promocionais da culinária paraense nos principais mercados emissores de turismo no Brasil”, explica.

Comportamento do Consumidor local x Turismo Gastronômico
Outro fator importante destacado por Álvaro é o comportamento singular do consumidor local. Para o diretor da ACP “Ele valoriza e tem orgulho da culinária paraense, a consome com regularidade em casa. Entretanto, olhando a paisagem gastronômica de Belém, os restaurantes com maior frequência de público não são aqueles especializados em comida típica tradicional. Esta parece fazer mais sucesso nos pontos de venda de comida de rua, locais onde os nativos encontram o tacacá, o cachorro quente, a maniçoba, a caruru, o vatapá, etc. Há uma exceção é verdade: os restaurantes cujo cardápio tem foco em peixe e açaí.

Já o turismo gastronômico, é um segmento em expansão, segundo o Professor. “O programa de fomento que foi realizado pela Secretaria de Turismo do Estado entre 2015 e 2018,trouxe inúmeros benefícios, ampliando a visibilidade da cozinha do Pará no principal mercado emissor de turismo ,ou seja, São Paulo. Como o turismo interno está crescendo, em função das restrições impostas ao ingresso de brasileiros em função da Covid nos Estados Unidos e Europa, a tendência é haver um incremento do fluxo turístico interno nesse segmento”, considera.